Trabalhadores marcharam contra Macri e o FMI

A praça estava lotada, com parte da multidão ficando entre as ruas adjacentes. No palanque, dez oradores se revezavam no microfone, defendendo um mesmo plano de luta contra a intervenção do Fundo Monetário Internacional (FMI) e para impedir a aprovação do orçamento de 2019 anunciado pelo governo – que prevê um ajuste muito mais forte que o de anos anteriores. Ademais, não faltaram alusões às eleições de 2019.

Meio milhão de pessoas mobilizadas, foi a quantidade que se podia estimar do palco, segundo os organizadores. Os órgãos oficiais deram uma cifra menor, mas a verdade é que a Praça de Maio e as vias arredores foram totalmente preenchidas pelas colunas de trabalhadores representando centenas de sindicatos portenhos, que começaram a chegar ao centro político do país desde o meio-dia, entrando pela Avenida de Maio ou pelas ruas diagonais.

Pela região sul da cidade vieram os sindicatos confederados na Confederação Geral dos Trabalhadores (CGT) e seus aliados da Frente Sindical para o Modelo Nacional. Ali estavam as colunas dos sindicatos de bancários, petroquímicos (APLA), mecânicos (SMATA), operários marítimos (SOMU), caminhoneiros e aeronavegantes, entre outras categorias. Também veio desse setor uma enorme coluna das organizações sociais unidas, que compõem o denominado triunvirato de San Cayetano: a Confederação de Trabalhadores da Economia Popular (CTEP), a Corrente Classista e Combativa (CCC) e a organização Bairros a Pé. Todas essas entidades participaram da mobilização e do ato em caráter de apoiadores, e só vão aderir a 24 das 36 horas da greve geral, a começar das 0h desta terça-feira (25/9).

A Avenida de Maio ficou reservada para as organizações que convocaram a greve: as duas correntes distintas da Confederação de Trabalhadores da Argentina (CTA). Apesar da mesma sigla, são duas organizações diferentes, embora neste caso tenham se unido. A CTA dos Trabalhadores, comandada pelo deputado kirchnerista Hugo Yasky, e a CTA Autônoma, liderada por Pablo Micheli, ocuparam o centro da praça, junto com os sindicatos de base dessas organizações. Na primeira fila, os professores do CTERA e do SUTEBA. Logo, funcionários públicos (ATE) e operários do estaleiro Río Santiago, trabalhadores de empresas de energia (Fetera), metroviários e outras categorias.

Pela Diagonal Norte ingressou a coluna do Plenário do Sindicalismo Combativo, encabeçada pelo Sindicato do Pneu, a União Ferroviária e os professores da Universidade de Buenos Aires (AGD-UBA) que se mobilizaram de forma independente e sob a consigna do Plano de Luta para Derrotar o Modelo. Logo, fizeram um ato próprio exigindo a continuidade das medidas de pressão contra o governo. Pela rua Bolívar entraram as colunas dos sindicatos de jornalistas, encabeçadas pelos recentemente demitidos trabalhadores da agência estatal Télam, que estão há três meses em permanência pacífica nas instalações da empresa. Também se notou na praça a presença de manifestantes não organizados e com cartazes feitos a mão, exigindo o fim do ajuste, a saída do FMI e até mesmo a renúncia do presidente Mauricio Macri.

O ato começou por volta das 15h30, como estava previsto. Cerca de 50 dirigentes sindicais e de movimentos sociais subiram no palanque, dando uma demonstração explícita de unidade dos trabalhadores. Próximo ao cenário, havia um espaço reservado para as organizações de direitos humanos e dirigentes políticos. Mais de dez prefeitos de pequenas cidades da Grande Buenos Aires formaram parte da “comitiva VIP” que se instalou nesse local. A única figura política que se fez notar no cenário foi o deputado nacional Agustín “Chivo” Rossi – considerado uma das alternativas do kirchnerismo para as eleições presidenciais, caso a Justiça impeça a candidatura de Cristina Kirchner.

Enquanto os dez oradores davam os seus discursos, os manifestantes cantavam em coro o grito que nasceu nos estádios de futebol, e que já se tornou um clássico das manifestações contra o governo e até em show de música: Mauricio Macri la puta que te parió (“Mauricio Macri vá pra puta que o pariu”).

Hugo Yasky começou sua intervenção dizendo que “estaremos (os trabalhadores) nas ruas até que o governo ceda e altere sua política econômica, que se acabem as demissões e que sejam reconhecidos os nossos direitos”. Ademais, criticou o presidente Macri lembrando que ele estava em Washington naquele mesmo momento: “já deve estar com os joelhos roxos, nós estamos de pé, e ele de joelhos diante do FMI”.

O dirigente da CTA também disse que “é preciso manter esta unidade e a convergência dos sindicatos, para construir um plano de luta”. Contudo, e em uma mensagem de clara conteúdo eleitoral, concluiu com a frase “o povo sempre volta (ao poder)”.

Logo, foi a vez dos discursos de Pablo Micheli, Sergio Palazzo (Bancários) e Pablo Moyano, este último como orador da Frente Sindical para o Modelo Nacional. Micheli, dirigente da CTA Autônoma, assegurou que “não é verdade o que o governo diz, que o único caminho é o FMI, temos que convencer o povo de que há outras saídas”, e concluiu propondo “fazer todas as greves necessárias até que este modelo econômico se caía, e que essa gente deixe o governo.”.

No mesmo tom, o dirigente dos Bancários considerou que o povo estava lutando “a batalha final contra o ajuste”, e que “a direita chegou no seu limite”. O orador da Frente Sindical foi o primeiro que falou diretamente aos deputados opositores peronistas, do Partido Justicialista (PJ) e da Frente Renovadora (FR) que fizeram alusões a votar de forma favorável ao orçamento proposto pelo macrismo, ou deixá-lo passar através da abstenção: “a oposição é maioria, e agora é preciso ser valente para rechaçar este projeto. Quem não o fizer será funcional ao governo que diz combater”.

Palazzo também se posicionou a favor de fazer “todas as greves necessárias, para intensificar o plano de luta”. Porém, também afirmou que “não queremos um golpe de Estado, queremos que mudem sua política”, caso contrário, e completou ironizando o slogan do macrismo: podemos cambiar a Cambiemos en 2019(Cambiemos, ou “Mudemos”, é o nome da coalizão macrista, e 2019 é o ano das próximas eleições presidenciais). Logo, recordou a convocação para a mobilização em Luján (durante evento religioso similar ao de Aparecida no Brasil), no dia 20 de outubro, embora omitindo a marcha até o Congresso no dia da votação do orçamento.

Esta jornada de manifestação na Praça de Maio foi o preâmbulo para uma greve na qual se espera uma contundente adesão, devido à situação que atravessam os trabalhadores. Os dirigentes falam em aceitação total por parte dos sindicatos da CGT e de ambas as CTA, incluindo os trabalhadores do transporte.

Ademais, haverá bloqueios de grandes avenidas e vias expressas de acesso à cidade de Buenos Aires, nas grandes avenidas próximas ao Obelisco e em outras dezenas de pontos na capital e em todo o país.

Às 14 horas desta terça, o triunvirato da CGT realizará uma conferência de imprensa para analisar os resultados da medida. Vale lembrar que esta é a segunda greve geral convocada pelas grandes centrais sindicais da Argentina somente este ano.

*Publicado originalmente no diário Tiempo Argentino  | Tradução de Victor Farinelli

 

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