O significado das eleições na Argentina para o Brasil

ARGENTINA, URUGUAI E BOLÍVIA terão eleições presidenciais no próximo 27 de outubro, domingo. São disputas que podem mudar radicalmente a tendência direitista observada no continente desde 2015. Entre os três países, a grande virada deve ocorrer na Argentina, maior economia da América do Sul depois do Brasil. Quem ganhar estará diante de um país arrasado economicamente e com seu Estado em processo de desmonte.

 

No Uruguai e na Bolívia, economias menores, o esforço progressista é para manter as atuais coalizões governantes. As duas economias cresceram respectivamente 1,6% e 4,2% em 2018, patamar superior à média continental de 0,9%. São fatores que indicam o favoritismo governista nas pesquisas de intenção de voto.

Na Argentina, as sondagens reafirmam as tendências vislumbradas desde a realização de eleições primárias nos principais partidos, no início de agosto. Pelos indicativos dos institutos Clivajes e CB Consultora de Opinião Pública, divulgados semana passada, a chapa Alberto Fernandez/ Cristina Kirchner venceria a dupla Maurício Macri/ Miguel Pichetto por 53,7% a 32,3%.

 

RECHAÇO AO ULTRALIBERALISMO

 

O significado dessa provável vitória para é claro: um rechaço ao modelo ultraliberal que desnacionaliza a economia, desmonta o que resta de parque industrial, desorganiza o tecido social, aumenta a miséria, concentra renda, enfraquece o poder do Estado e aprofunda a subordinação aos Estados Unidos.

 

Fernández e Kirchner devem um país arrasado, com enormes expectativas de melhoria imediata nos padrões de vida, por parte da população. É algo difícil de se obter no curto prazo. Esse será o principal desafio da volta do peronismo à Casa Rosada, uma espécie de síndrome de sísifo, de reconstrução permanente. Aproveitando-se dessa vulnerabilidade inicial, estarão todos os agentes de mercado – bancos, meios de comunicação, oligarquias internas e interesses externos – prontos para desatar uma política de isolamento e estrangulamento do novo governo.

 

Diante dessa perspectiva, as duas maiores centrais sindicais argentinas decidiram iniciar um processo de fusão, no último dia 3 de outubro. O congresso da Central de Trabalhadores Argentinos (CTA) aprovou sua incorporação à Central Geral de Trabalhadores (CGT). Segundo as resoluções, a iniciativa visa “contribuir para a unidade do campo popular e a luta da classe trabalhadora”. No mesmo documento, a central alerta que “independência de classe não é neutralidade” e externa seu apoio à chapa peronista.

 

A iniciativa resultará numa nova entidade que – em tese – representa 5,5 milhões de trabalhadores. Todos devidamente precarizados e com direitos confiscados graças a uma reforma da Previdência (2018) e à pretendida reforma trabalhista que Macri prometeu ao FMI no início deste ano.

 

A Argentina está sob tutela do Fundo, que aprovou em 2016 seu maior empréstimo a um país, US$ 56 bilhões, integralizados em diversas parcelas. A inflação deve fechar o ano próxima de 50% e a taxa de desemprego é de 10,6%. A pobreza disparou, atingindo cerca de 15 milhões de pessoas, ou 35,3% da população.

 

“TODOS SÃO PERONISTAS. ATÉ A OPOSIÇÃO”

 

A unidade sindical só é possível num país que renova a cada momento sua principal corrente política, o peronismo. O presidente Juán Domingo Perón, entre 1946-55, foi o grande criador do Estado argentino moderno, com suas políticas industriais desenvolvimentistas e leis trabalhistas que reordenaram um país dominado pela oligarquia da carne em aliança com o poder militar.

 

A influência do coronel tornou-se tão avassaladora, que o peronismo abrigou de ultraliberais, como Carlos Menem (presidente entre 1989-99), a grupos de luta armada de esquerda, como os Montoneros, que agiram nas décadas de 1960-70. É voz corrente que na Argentina todos lá são peronistas, até a oposição.

 

Para os brasileiros, a disputa no Prata tem um significado especial. Jair Bolsonaro elegeu Maurício Macri seu aliado preferencial na região, juntamente com Sebastián Piñera, do Chile. O plano da extrema-direita brasileira era realizar um Pacto ABC às avessas.

 

Como se sabe, o Pacto era uma articulação lançada pelo Barão do Rio Branco, em 1910, buscando ampliar a influência brasileira na região. Para exercer essa liderança e ter autonomia em relação aos Estados Unidos, o então ministro das Relações Exteriores propôs uma aliança entre Argentina, Brasil e Chile, que seriam responsáveis pelo equilíbrio político na região. Como maior país, a vantagem brasileira seria incontestável. Essa é a baliza fundamental de nossa política externa desde então.

 

Jair Bolsonaro também queria uma espécie de pacto, denominado por ele de Prosul. Com o bloco dirigido por coalizões de direita, a perspectiva era a de se exercer uma influência de alcance global, em aliança com o governo Donald Trump. A articulação corre agora sério risco de ir para o vinagre. Não é à toa que Bolsonaro há meses alerta seus seguidores sobre o “perigo” representado pela eleição dos “bolivarianos” na Argentina.

A Argentina é a principal parceira comercial brasileira na América Latina e a terceira no plano mundial, atrás da China e dos Estados Unidos. Entre janeiro e maio de 2019, a pauta de exportações brasileiras era composta por 89,6% de produtos manufaturados, segundo dados do Ministério da Economia. Trata-se de um diferencial importante em relação a outros mercados para os quais o Brasil vende produtos básicos e semimanufaturados, em sua maior parte. Desde, 2007, o Brasil é superavitário nas trocas com o vizinho. A forte retração econômica argentina, em 2018, fez com que a balança passasse a registrar um ligeiro déficit.

 

KIRCHNERISMO E LULISMO

 

As vitórias eleitorais de Luiz Inácio Lula da Silva (2002) e Nestor Kirchner, (2003), com coalizões que se mantiveram no poder até 2015-6, estreitaram os laços bilaterais. Vale uma ressalva: a aproximação se deu após a saída de Antonio Palocci do ministério da Economia. Até 2006, o Brasil evitou solidarizar-se ao calote que Kirchner foi obrigado a dar em parte dos credores da dívida pública argentina.

Daí por diante, tivemos o período áureo de integração. Graças ao boom das commodities (2004-12), a economia platina se recuperou e voltou ao mercado internacional de crédito e o Brasil realizou um ensaio desenvolvimentista, com sensível redução da miséria.

 

Tal aquecimento alavancou mercados internos, deu margem a elevações generalizadas de salários, à queda nos índices de desemprego, ao acesso à educação e à expansão de serviços públicos. Nesses anos não apenas o Mercosul ganhou dimensão política, para além de sua marca inicial de união aduaneira, como foi criada a União de Nações Sul Americanas (Unasul), entre outras iniciativas. Em um âmbito ampliado, em 2010 veio à luz a Celac – Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos – organismo intergovernamental, composto por 20 países.

 

Argentina e Brasil vivem, pelo menos desde 2010, acentuados processos de desindustrialização, seja pela manutenção do câmbio em patamares elevados – caso em especial do Brasil – seja pelo abandono de políticas industriais e de desenvolvimento, a partir de 2015, caso de ambos.

 

ABRAÇO DE AFOGADO

 

Bolsonaro visitou a Argentina, na primeira semana de junho último. Entre carnes nobres e tintos de qualidade, o celerado declarou apoio incondicional a Maurício Macri. O périplo foi precedido por uma surpreendente entrevista do brasileiro ao jornal La Nación. Sem meias palavras, o presidente tocou em uma das feridas abertas do país vizinho, ao falar às claras de um acordo dos porões da repressão dos anos 1970-80, que nenhum chefe do Executivo brasileiro jamais admitiu:

La Nación — [Houve] 30 mil mortos [durante a ditadura]. O senhor acredita que esse número mudou algo para melhor na Argentina

 

Bolsonaro — Não, não. Tivemos a Operação Condor entre vários países e os militares daquela época evitaram que o país caísse no comunismo. Foi isso o que aconteceu. Quantas pessoas morreram ou desapareceram e por quais motivos? Que cada país escreva sua história…

 

Macri logo em seguida veio a público dizer tinha afinidades com seu colega, mas não poderia de modo algum concordar com esse ponto. Na Argentina, durante os anos Nestor/Crstina Kirchner, uma comissão da verdade evidenciou crimes da ditadura (1976-83) e levou militares graduados às barras dos tribunais. O regime militar é lá rechaçado pela maioria da população.

 

De certa maneira, o apoio de Bolsonaro a Macri pegou mal para uma parcela significativa da sociedade. O miliciano pode, assim, ter dado uma mãozinha para sua queda acentuada nas pesquisas. Alberto Fernández e Cristina Kirchner deveriam agradecer.

 

 

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