Golpe miliciano-militar na Bolívia é recado violento para o Brasil

A América Latina está em estado de golpe. A vitória democrática na Argentina é ponto fora da curva e as insurreições populares no Chile estão sendo relativamente contidas com a conivência habitual dos meios de comunicação do continente, apodrecidos pelo tempo e pela falta de caráter. 

 

A situação do continente muda vertiginosamente e se a nossa visão não mudar, ela salta para a militância travestida de análise, o que caracteriza desonestidade intelectual.  

 

O Brasil corre perigo. A empolgação em torno de Lula e do amor sempre foi um prato cheio para a violência da nossa elite racista. 

 

O cenário mudou novamente. Depois de Lula livre, a bandeira da esquerda se estilhaça - porque os temas se estilhaçam - e será preciso muita inteligência, garra e sorte para se evitar a consolidação do golpe miliciano-militar no Brasil, com a mesma violência com que ele se deflagrou na Bolivia. 

 

Peço licença para antes falar de Lula, de seu talento singular com as palavras e de seu papel neste novo desenho no continente. Após essa pequena resenha, menciono o coquetel explosivo que no aguarda. 

 

Lula e a linguagem

 

Lula jogou iscas para o patronado a vida toda. Patrões, a despeito do poder e até por isso mesmo, são sempre muito burros. Como vivem da bajulação dos outros, quando encaram alguém inteligente são facilmente feitos de bobos. 

 

Eles só mantêm as posições porque a maioria dos trabalhadores teme parecer inteligente “demais” com medo de perder os empregos. 

 

Essa é a razão pela qual Lula deixou perplexos os patrões nas greves gerais e na sua vida política de sindicalista. Manteve as bestas sob controle, o controle da linguagem, da inteligência narrativa. 

 

Mas ele brincou, descontraiu, armou arapucas lógicas e retóricas dentro da legitimidade que a linguagem humana permite, e teve o caráter de sempre falar a verdade e ser transparente nas demandas públicas do setor, coisa que que pouquíssimos interlocutores desses mesmos patrões tiveram. 

 

Permitam que eu explicite melhor, já que mergulho na psicologia de Lula: Lula joga a verdade de maneira lancinante para seu interlocutor, protocolo conversacional vetado pelas leis do bom comportamento (argumento postulado pelas máximas conversacionais de Grice, filósofo da linguagem britânico – GRICE, 1975). 

 

É o sincericídio, só que ao contrário: virtuoso, estratégico, modalizado por perguntas capciosas e comentários aparentemente despretensiosos ou falsamente agressivos. 

 

Lula já deu vários exemplos de sua competência conversacional desde que saiu da prisão política. 

 

Um é sua conversa com Luciano Huck, revelada pela jornalista Mônica Bergamo. Explico o episódio: o PT alugou um avião para trazer Lula para São Paulo e esse avião era da empresa de táxi aéreo de Huck. 

 

Segundo a jornalista, Huck soube que Lula estava no avião e telefonou para ele (no fim, todo mundo é fã de Lula, mas deixa isso pra lá). Lula atendeu. Trocaram os afagos protocolares e Lula disse: “me convida pra ir no seu caldeirão”. 

 

O que ele fez? Jogou uma armadilha terrível para Huck. Como o apresentador tem pretensões presidenciais e é funcionário da Globo, ele não pode decidir convidar Lula para o seu programa. Terá de pedir autorização dos patrões e macetar a própria cabeça para avaliar se é uma boa ideia. 

 

Mas Lula fala isso na maior tranquilidade e dentro da sua insuportável lealdade: se convidado, iria (ou irá). Horas depois, ele criticaria com veemência a emissora de Huck, também distribuindo armadilhas retóricas que, diga-se de passagem, foram todas “mordidas”.

 

Lula controla até a “revelação” da jornalista da Folha, Mônica Bergamo, que acha que está dando um furo de reportagem, quando, na verdade, está servindo à estratégia cenográfica de Lula. 

 

Só para constar: Lula faz isso sem nenhum assessor especial de comunicação, sem nenhum “gênio” de marketing político, sem nenhum teórico a tiracolo, sem nenhum guru. 

 

É por isso que George Bush ficou fascinado com Lula. Ele jamais tinha visto alguém tratar a linguagem – universal – desta maneira (e Bush não era um ativista de esquerda). 

 

Por isso, Obama, ficou perplexo com Lula. Por isso, as paixões em torno de Lula são exasperadas: as pessoas o amam (ou o odeiam) como antigamente se amava “ídolos de rock”, essa categoria em extinção (porque ambos mexem com a estrutura da linguagem, não com seu uso convencional). 

 

Lula e América Latina

 

A América Latina está em ebulição e acabamos de testemunhar um grotesco golpe miliciano-militar na Bolívia. Foram as polícias bolivianas que implodiram a democracia daquele país. 

 

É esse pesadelo que pode chegar ao Brasil. O cenário é muito complexo, porque a euforia com Lula pode ser atropelada por um processo histórico muito mais poderoso e violento do que qualquer líder de massas poderia imaginar, mesmo Lula. 

 

Certamente, ele produzirá a melhor resposta a esse momento. A nossa catástrofe e a nossa sorte, no entanto, andam de mãos dadas: ter Lula e não tê-lo ao mesmo tempo - uma vez que a perseguição a ele não cessou e jamais cessará - é o que nos paralisa (enquanto deveria ser o que nos move). 

 

A maior garantia de civilização possível na América Latina neste momento é a voz de Lula. Alberto Fernandez, Pepe Mujica, Evo Morales e Lopez Obrador sabem disso. 

 

Mas é bom preparamo-nos para um embate ultra violento e para amplificarmos os talentos persuasivos de Lula. A militância de esquerda está ainda traumatizada e hiper-reativa. É o castigo que lhe foi conferido por um continente que tem a pior elite do planeta e que volta a sentir o pesadelo da boçalidade militarista, agora incrementada pelas polícias militares, câncer institucional herdado das ditaduras.

 

A Bolívia faz incitar os ânimos dos apoiadores de aluguel dos milicianos que ocupam o Planalto. Eles querem um regime de força, até porque sabem que na democracia, eles perdem. 

 

Lula é quem pode produzir essa complexa resposta histórica no continente. Mas precisará de mais inteligência ao seu lado. Mais inteligência e menos lacração.

 

Até porque, driblar a índole autoritária da história não é tão simples quanto driblar o jardim da infância retórico que são os patrões e Luciano Huck.

 

 

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